MC 19 - Entre a tradição e a Modernidade: religiões de matriz africana e cultos ayahuasqueiros no Brasil contemporâneo

Autores

Janderson Bax Carneiro

Doutorando

PUC-Rio

jandersonbax@ig.com.br

Rodrigo Rougemont da Motta

Mestre

UFRJ

rodrigorrm@gmail.com

Ementa

A construção da Modernidade Ocidental é caracterizada pelo avanço do racionalismo, bem como pela consolidação de valores morais e cosmovisões legados pelo Cristianismo. No entanto, a partir da segunda metade do século XX, as sociedades ocidentais experimentaram a acentuação das críticas a determinados valores e características da “civilização”. Nos EUA da década de 1970, o cenário de guerras, lutas raciais e busca de maior liberdade de expressão põe em cheque representações e práticas consagradas na história do Ocidente. No que diz respeito às experiências sociorreligiosas, podemos assinalar a emergência de uma religiosidade assentada na valorização das sensorialidades. Nos centros urbanos, proliferaram movimentos religiosos inspirados na ideia de superação das inúmeras cisões operadas pelo pensamento cartesiano e consequente resgate de uma “unidade essencial” entre o ser humano e o cosmo, como fica evidente no chamado Movimento Nova Era. A noção de tradição foi ressemantizada, a fim de propiciar novos agenciamentos e configurações subjetivas. Se, por um lado, podemos presenciar a refutação das tradições reificadas na cultura ocidental, por outro, elementos das mais diversas e remotas pertenças religiosas passaram a ser resgatados e apontados como sinais diacríticos de “pureza”. No Brasil, religiões secularmente marginalizadas, como o Candomblé e a Umbanda, experimentaram um sensível processo de “reafricanização”, baseado na valorização de referências estéticas e cosmológicas alusivas ao Continente Africano, então percebido como fonte de força mágica e terra de uma relação simbiótica entre homens, deuses e elementos da natureza. Similarmente, a partir de um discurso de valorização do meio ambiente e comunhão com a natureza, as assim chamadas “religiões ayahuasqueiras brasileiras” ganham relevo, passando inclusive a ser exportadas. Nesse sentido, o processo de construção do que denominamos Modernidade não constitui um movimento linear. Trata-se, antes de tudo, de um processo que abarca negociações, conflitos e circularidades entre os valores hegemônicos e aqueles percebidos como “alternativos” aos paradigmas vigentes. Este minicurso se propõe a refletir sobre o lugar da experiência religiosa no Mundo Contemporâneo, privilegiando as tensões, permanências e rupturas subjacentes à persistência, nos centros urbanos brasileiros, das práticas religiosas assentadas no transe de êxtase e possessão.


Cronograma das atividades:

6 horas/aula

I-Dos Calundus à Umbanda: Um sobrevoo sobre as religiões de matriz africana no Brasil
1.1-Diáspora negra, fragmentação e reconstrução da “África Mítica”;
1.2- O mito da “pureza nagô”;
1.3-O universo simbólico plural da Umbanda.

II- Ciência e religião: antagonismos e discursos imbricados
2.2- O ofício de curar, a medicina e a “feitiçaria”;
2.3- transe de êxtase e transe de possessão: os desafios às categorizações ocidentais do “eu”.

III- A Cura pelo cipó: o uso da ayahuasca nos centros urbanos brasileiros
3.1- A (re)construção da noção de tradição no Mundo Moderno;
3.2- Afastamentos e aproximações: religião, medicina e psicologia;
3.3- Religião, Ciências Sociais e História: pensando o sagrado.

Bibliografia


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  • Locais e datas

    • 10 de Maio de 2017
      08:00 - 12:00

      Sala 3068

    • 11 de Maio de 2017
      08:00 - 10:00

      Sala 3068

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